O Mito do Amor Romântico

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Finalmente deitei-me na cama e chorei. Chorei sem resistir. Chorei, acolhendo toda a dor, raiva, ansiedade, medo, angústia, desespero. Visitantes que ao longo dos meses passados habitaram dentro de mim mas que teimava em não dar atenção. Porque doía tanto, tanto. E eu, sempre perita em fugas, optei por não olhar. Mas nesse dia rendi-me. E em simultâneo, repetia incessantemente para mim: “não precisas de ninguém para te salvar, não precisas de ninguém para cuidar de ti, não precisas…porque só tu podes fazer isso”. A mente tentava ao máximo focar-se nisto – numa mensagem empoderadora – mas… mas existia uma parte de mim que não conseguia deixar de sentir-se desempoderada, pouca, vazia, pequenina. Era a minha criança. A menina que se sentia abandonada, traída, desamparada, com medo.

E essa dor era tão profunda, escura, lamacenta que a sensação é que o meu coração sangrava. Era um buraco que não tinha fim. Era visceral! As palavras não cabiam no meu sentir. Era uma dor crua. A ferida estava aberta e era insuportável. A garganta parecia não ter capacidade de engolir. O coração batia desalmadamente. A ansiedade subia para níveis nunca antes sentidos. Até que comecei a ouvir a canção que a minha avó me cantava, quando era pequenina, enquanto me embalava: ” alecrim, alecrim aos molhos por causa de ti choram os meus olhos…”

Este foi o momento em que finalmente decidi iniciar o luto. O luto pela separação de uma relação de 16 anos. E este foi o motivo pela minha pouca presença nos últimos meses. Perdoem-me. Estou certa que compreenderão. Nos próximos emails aprofundarei este assunto, no que me for possível expor, sempre com o intuito de vos ajudar. Por ora, e na sequência deste acontecimento e aproveitando o dia da Mulher que foi ontem, vou abordar o mito que nos impede de termos relações amorosas verdadeiramente felizes. E este é o mito do Amor Romântico.

Fomos educadas, enquanto mulheres, a esperar que alguém nos venha salvar. Os filmes da Disney do “viveram felizes para sempre” estão no nosso inconsciente como uma memória romântica do que seria uma relação amorosa perfeita. Por isso, esperamos, esperamos pelo princípe encantado, pelo principe encantado que nos vem salvar da bruxa má.

Já agora, qual é o teu conto de fadas favorito ou o que te recordas mais nitidamente da infância? Porquê?

Hoje em dia são vários os movimentos que nos levam a despertar para um paradigma diferente. Um paradigma em que a mulher só pode ser salva por si mesma, em que a mulher só pode esperar amor se se amar em primeiro lugar, em que a mulher quer igualdade mas respeitando a sua natureza feminina.

Mas como fazer isto agora na prática se crescemos tão condicionadas por mensagens do sistema patriarcal que nos desvalorizaram e nos colocaram numa posição inferior, a depender sempre da valorização externa para gostarmos de nós? Como?

Quantas vezes és apanhada a dizer: “o meu marido, ou ex-marido, ajuda-me….”. Upss!

Como podemos mudar todas estas crenças que bloqueiam relações amorosas saudáveis?

Sim, porque aos esperarmos que o “homem” nos venha salvar criamos expectativa em relação ao outro impossíveis de alcançar. Esperamos que os homens caibam num molde de um princípe encantado que nos vem salvar e desresponsabilizamo-nos pelo nosso amor próprio. E depois dizemos que se transformou num sapo.

São sapos mas… que se lixe, vamos ficando. Vamos ficando porque é menos mal do que estar sozinhas e nos confrontarmos com aquela dor de abandono. Vamos permitindo. Vamo-nos atropelando. Um bocadinho aqui e ali e acabamos por nos habituar. E estamos nesse lugar. Porque é preferível viver amorfas, calar a nossa voz e alma, do que sermos as nossas próprias salvadoras. Alguém nos ensinou isso?

E os homens?. Os homens perdidos, vazios, com o seu masculino ferido não entendem, não percebem o porquê do nosso desagrado, da nossa irritação, da nossa inquietação. Já não sabem o que é ser homem. Já não sabem se é para ser forte ou frágil, silencioso ou comunicativo, ….

Há um desencontro. Há um desencontro que acontece porque ambos estão feridos e vazios. Porque não integram de forma equilibrada, mulheres e homens, a energia feminina e masculina dentro de si. Porque não olham para as suas dores, para as crianças interiores feridas, porque não podem ser vulneráveis.

Como é natural tenho refletido muito sobre relações amorosas – aquelas que duas pessoas são dependentes uma da outra de forma tóxica. Porque sinto que de uma forma geral é isso que se vive. Confesso que o meu filtro é esse. Observo muitas relações de dependência que não cumprem com o propósito de crescimento em conjunto: casais que discutem ou que ficam em silêncio, que se acomodam, que vão morrendo por dentro, que encontram fugas em relações extraconjugais, na bebida, nas saídas noturnas, … para não se confrontarem com a sua própria ferida.

Como podemos mudar isto e criar relações amorosas saudáveis? Relações onde não esperamos que o outro não nos venha salvar da dor da criança ferida mas onde outro seja, simultaneamente, nosso aprendiz e mestre? Relações onde cada um pode ser autêntico e livre para ser quem é? Como podemos fazer isto?

Tudo bate, mais uma vez, no mesmo ponto: na educação.

E como podes ensinar o teu filho a ter uma relação saudável futura?

E, mais uma vez, tudo começa na educação, que é como quem diz: na tua reeducação.

Reeduca-te para puderes educar o teu filho de forma a que, tanto tu como ele, possam ter uma relação amorosa plena e consciente.

E é nesta temática que a minha alma tem andando nos últimos meses . Meses de descida, – uma descida profunda, escura, visceral – sem dúvida, mas também de grandes descobertas e aprendizagens. Aprender a salvar-me a mim própria, a ser a minha própria cuidadora, a acolher esta menina perdida, não é um caminho sempre a subir e cheio de flores mas, sem dúvida, é uma caminho de regresso a casa.

Uma coisa posso já revelar-te: só podemos ter relações de dependência saudáveis (e não tóxica) se nos vincularmos. A autonomia pressupõe dependência.

Se sentires, agenda uma sessão estratégica comigo aqui: http://www.carlapatrocinio.com/agendamento

O caminho faz-se caminhando…

Abraço,

Carla Patrocínio

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