“O meu filho não tem direito a zangar-se!”

“O meu filho não tem direito a zangar-se!”

Escrevi um dia quando me perguntaram sobre as minhas expetativas em relação ao seu comportamento. A zanga do meu filho era algo que me afastava do meu centro. “Que direito tinha ele de zangar-se, que direito!”. Nesses momentos ficava muito focada em acabar com esse comportamento o mais rápido possível, utilizando várias estratégias que, no final, acabavam sempre em explosão: gritos, ofensas, comparações, menorizações, enfim… tudo aquilo que não queria e que me fazia sentir mal enquanto mãe.

A resposta final que oferecia a maior parte das vezes à sua zanga era zangar-me. O que não sabia é que por detrás desta zanga existia outra emoção que não queria olhar. A verdade é que aquele comportamento despertava em mim muitas memórias e sensações que não sabia como lidar.

Um dos maiores desafios para a maioria dos pais é lidar com a zanga dos filhos. Mas antes de desvendar como lidar com a zanga nos nossos filhos, vamos desconstruir alguns mitos que existem em relação à emoção zanga.

MITOS EM RELAÇÃO À ZANGA

 – A zanga não é necessária

A zanga, que muitas vezes é expressa de forma violenta, é a emoção mais incómoda que pode existir em todos os contextos de forma geral. Por este motivo, persiste o mito de que para um ambiente ser harmónico não pode existir zanga. Nos ambientes mais formais, a tendência é reprimir esta emoção. Uma curiosidade a referir é que os seres humanos são os primeiros mamíferos a reprimir reações emocionais. Nos ambientes informais, como em casa com a família, dá-se muitas vezes o oposto: a explosão. Uma educação consciente deve mostrar o caminho para canalizar a zanga de forma saudável – para que esta não se expresse de forma agressiva e violenta – mas não a deve proibir. Mas em primeiro lugar temos de largar este mito: a zanga tem direito a existir! A zanga é necessária! Em nós, nos nossos filhos, na nossa família e por aí fora. Porque, como observamos no mundo de hoje, quando não existe espaço para a zanga, ela acaba por se manifestar de formas terríveis. A questão é como não me posso zangar vou-me maltratar e/ou maltratar os que me rodeiam.

– A zanga é uma emoção negativa

Não existem emoções negativas ou positivas. Todas fazem parte da natureza humana e devem honradas. Qualificar dessa forma as emoções faz-nos querer fugir do sentir que as adjetivadas como negativas nos provocam. Honremos por igual todas as emoções. A nossa zanga, quando acolhida com gentileza, permite-nos comunicar os nossos limites e encontrar o nosso lugar no mundo. Nesse sentido pode ser bastante positiva, não é?

A sugestão é substituir emoção negativa por emoção contrativa. Existem emoções que nos fazem expandir, como a alegria, e outras que nos fazem contrair, como a zanga. Por ser uma emoção que nos contrai a sua intenção é que olhemos para dentro de nós. E desse olhar podem surgir descobertas muito positivas e empoderadoras.

– A zanga tem que ser extinta

Esta crença deixa que informação muito importante e poderosa acerca de nós nos passe ao lado sem nos darmos conta. Informação essa que pode ser deveras impactante no nosso crescimento. Se estamos apenas focados em fazer com que essa zanga desapareça, dificilmente conseguimos ver o que está para além. É possível converter aquilo que até agora consideramos o nosso pior inimigo em nosso maior aliado ao olhar para esta emoção como uma oportunidade de autoconhecimento. Essa zanga não tem que ser extinta pois isso gera respostas de fuga (vamos acabar/ fugir da zanga) em relação à mesma. Essa zanga tem sim que ser transformada, ou seja, sentida, observada, acolhida e questionada com compaixão. Qualquer emoção tem dentro de si uma mensagem mágica a desvendar. Que tenhamos a ousadia de a descobrir…

 O IMPACTO DA ZANGA NÃO TRANSFORMADA

Poderia enumerar uma série de consequências em relação à zanga não transformada, isto é, em relação à zanga que fica cá dentro escondida ou que sai de forma descontrolada sem olhar a meios. A nível macro, os exemplos são vários e aterradores. A nível micro – porque é algo que é uma “bola de neve” e acaba por impactar em todas as áreas da nossa vida, inclusive na nossa autoestima (como te sentes quando explodes com o teu filho?)- é devastadora. Mas uma consequência que acho importante referir e urgente de olhar é a desconexão que gera entre pais e filhos. A falta de ligação sentida pelos jovens em relação aos seus cuidadores primários está a tornar-se muito perigosa. Existem cada vez mais jovens com ataques que ansiedade, pânico, a mutilarem-se… É urgente, é urgente saber como podemos transformar a zanga num espaço de autodescoberta e crescimento e como podemos ajudar os nossos filhos a fazer o mesmo.

DICAS PARA OS PAIS LIDAREM COM A ZANGA DOS FILHOS

O artigo de hoje é sobre isto: como lidar com a zanga dos nossos filhos?

As crianças desenvolvem uma parte considerável das suas capacidades emocionais através da observação e da imitação. Hoje em dia fala-se muito sobre os neurónios-espelho que são um circuito de neurónios existentes no cérebro cujo o principal fim é aprender através da observação. Isto faz com que, por exemplo, quando uma criança vê o pai ficar zangado, o seu cérebro imagina-a igualmente zangada. Neste sentido, no processo de ensinarmos os nossos filhos a transformar a sua zanga, o primeiro passo é proporcionar bons modelos que a criança possa imitar. Educamos pelo exemplo. Mas como o podemos fazer se não nos ensinaram?

A maior parte de nós reage à sua zanga de duas formas: ou reprime ou explode. No meu caso, eu era a mestre da explosão. Independentemente de qual das formas que utilizamos, ambas são prejudiciais à saúde. Mas a zanga “dá-nos jeito” (digo eu, ironicamente) porque é a desculpa – inconsciente – perfeita para não nos fazer entrar em contato com aquilo que verdadeiramente sentimos. A zanga quando não observada é uma fuga a uma sensação que pode ser muito assustadora numa sociedade como a nossa: a nossa fragilidade, que é como quem diz, a nossa humanidade.

A boa notícia é que aceder a essa humanidade pode levar-nos a caminhos poderosos nunca antes navegados. E, apesar de não nos ensinarem a lidar com a zanga, podemos aprender – mesmo – em adultos, se assim o quisermos. Neuroplasticidade é um conceito recente que descobriu que o nosso cérebro, ao contrário do que se pensava, tem capacidade para se remodelar e regenerar ao longo de toda a vida através das experiências externas. Quer isto dizer que ninguém está fadado a ser como é, podemos sempre aprender e mudar velhos padrões.

Reeducação é a palavra chave. Vamos a isso?

Chegas a casa e o teu filho não quer tomar banho, depois de vários avisos. E começa aí a espiral até que pum: reprimes (deixas fazer o que o teu filho quer não colocando limites), explodes (ofende-o…) ou …. será que existe outra saída?

DAR COLO À TUA ZANGA

Sim, existe outro caminho que é: dar colo à tua zanga. Como podes fazer isso? Lê abaixo:

 – Cria um espaço

Para, sai da zona de conflito. Este passo é crucial para conseguires criar um espaço de quietude. Quando os nossos filhos têm um comportamento que nos desafia é como se nos sentíssemos ameaçados. Nesse momento é como se houvesse uma batalha entre as nossas expetativas e a realidade. Por isso, respira e renda-te ao que está a acontecer. Se fizeres uma respiração profunda, lenta e abdominal conseguirás desligar esses mecanismos de alerta e criar um espaço entre a emoção intensa e a reação. Está com a tua respiração durante algum tempo …

– Olha para dentro

Sente a energia da emoção. Coloca-te no “olho do furação” acompanhado pela tua respiração. Não tentes modificar, julgar, fugir dessa emoção. Observa-a simplesmente, com gentileza e curiosidade: em que zonas do teu corpo se tende a esconder e intensificar?  Nessas áreas podes, inclusive, visualizar se essa emoção tem cor, forma ou textura. E continua respirar a emoção. Sente a força que tem no teu corpo. E continua a respirar… dando colo à tua zanga.

– Torna-te amigo da zanga

Pergunta-lhe o que te quer dizer: que mensagem tens para mim? Que necessidade minha não está a ser atendida?

Um dia percebi que a emoção primária da zanga era o medo e continuei a respirar… surgiu o medo de não ser respeitada… e deixei-me ir …. surgiu o medo de não ser suficiente, de não ser boa mãe… e deixei-me ir… e lembrei-me da minha criança que muitas vezes não foi ouvida e respeitada. E percebi: era por medo de aceder a essa vulnerabilidade que me zangava. Um dia olhei-me ao espelho no momento da explosão e vi… vi uma criança assustada. A mensagem da zanga nesse dia foi: é altura de cuidar de ti.

Se queres transformar a zanga e relacionares-te com o teu filho de uma forma mais consciente o truque é olhares para dentro de ti. Muda o paradigma: não é o teu filho que te faz zangar, é a tua pessoa que fica zangada. Os gatilhos não estão fora de ti, estão dentro de ti. Reflete: porque é que o mesmo comportamento de um filho pode ser desafiante para um dos progenitores (levando à explosão) e para o outro não?

Quando aprendes a lidar com a tua zanga já tens quase todo o caminho feito para lidar com a zanga do teu filho. Já não vais ficar perdido, atrapalhado, irritado porque já tens recursos para ajudar o teu filho nessa jornada. No entanto, existem algumas dicas que gostaria de te transmitir para te ajudar a lidar com a zanga teu filho (que, muitas vezes, porque se volta contra ti – com agressões físicas ou verbais – se torna difícil de suster).

DICAS PARA LIDAR COM A ZANGA DO TEU FILHO

– Reconhece o direito à zanga do teu filho

Reconhecer que o teu filho tem direito a zangar-se é ensinar-lhe que as suas emoções/ necessidades têm valor, ainda que, às vezes, precise de aprender a expressá-las de outro modo. Se, por exemplo, a criança te chama nomes deves ensiná-la que não pode fazer isso (limitar gentilmente mas de forma clara) mas sem reprovar as suas emoções. “Não podes fazer isso mas podes sentir essa emoção, eu vou ensinar-te a expressá-la de forma saudável…”, é esta a mensagem que deves transmitir.

– Valoriza a zanga do seu filho e dá-lhe espaço

Quantas vezes em pequenos ouvimos frases deste género quando estávamos zangados: “Mas estás zangado por causa disso?, “ Olha este jogo, esquece isso, já passa!”, “ Chega ou levas uma palmada! “.

A criança ou jovem está zangado por alguma razão. Ignorar, distrair ou explodir não é a resposta mais acertada para o ensinar a lidar com essa emoção. Nesse momento não desvalorizes, simplesmente está presente com um abraço ou, se não for possível, em silêncio. Isso também passará…

– Percebe qual a necessidade que está por detrás da zanga

Nesse momento faz de conta que és um super-herói e coloca os teus “óculos supervisão”. Em vez de tentar corrigir o comportamento, olha para o que está submerso: a necessidade. “Todo comportamento é comunicação” é um dos axiomas da Teoria da Comunicação. O que será que ele está a tentar comunicar? Que necessidade terá por satisfazer?

 – Transforma zanga em conexão

Quando o comportamento de explosão da criança terminar, em vez de passar à conversa do que ela pode ou não fazer ou como fazer, foca-te antes de tudo em estabelecer ligação.

– Ajuda-o a acolher essa emoção

Ajuda-o a identificar a emoção que surgiu no momento da desregulação emocional, reafirma o direito de ele a sentir e procura alternativas com ele para que possa expressá-la sem passar ao ataque ao outro. Algo que o meu filho me sugeriu foi ter um saco de boxe para conseguir libertar a sua zanga.

Não consigo deixar de explodir!

Transformar zanga em harmonia é possível mas isso não quer dizer que os momentos de impaciência deixem de existir, continuamos a ser humanos. O que posso partilhar é que agora quando explodo procuro sempre não apontar o dedo para fora mas sim para dentro e, se tiver que gritar, que seja para verbalizar as minhas emoções e necessidades e não para maltratar o outro.  

Mas não consigo deixar de explodir? Esta é uma observação que normalmente me colocam alguns pais que procuram a minha ajuda. Claro que não é fácil deixar de explodir. Reeducarmo-nos exige esforço, paciência, repetição, disciplina e treino. E este caminho tem várias etapas que neste artigo não é possível trabalhar, no entanto o que é importante referir é que não explodir é uma Escolha. Pode escolher sempre não explodir. É uma escolha que exige treino porque pressupõe mudança de hábitos, que há anos estão instituídos em nós, mas que é possível. Sim, é possível! Se eu consegui, também consegues!

– Se de repente as emoções tomam conta de ti e sem dar por isso explodes com o teu filho, sentindo-te culpada;
– Se te sentes triste com esses teus comportamentos mas não sabes como fazer diferente;
– Se tens um filho ansioso, agitado, reativo, impulsivo e queres ajudá-lo mas não sabes como o fazer;
– Se queres urgentemente mudar essa situação;

agenda uma sessão estratégica gratuita comigo aqui para saber como podes alcançar essa intenção aqui: http://www.carlapatrocinio.com/agendar

Abraço,

Carla Patrocínio

 

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