A lista de estratégias para lidar com o (teu) meu filho desafiante

Nesse preciso momento parecia um animal primitivo. A imagem que me vem à cabeça é um daqueles gorilas com os dentes e garras de fora, com ar assustador e violento. Uma imagem perturbadora. Gritei, menosprezei, comparei. Magoei-o verbalmente o mais que pude. Aquilo que o meu filho tinha feito era inadmissível.

“Ele estava a testar os  meus limites!”

“Ele estava a faltar-me ao respeito”

“Ele estava a gozar com a minha cara”

Claro que a seguir veio o arrependimento. Horrível. Chicoteei-me mentalmente até ficar com marcas. Aquela minha atitude estava completamente em desacordo com o que dizia a lista de estratégias que me tinha sido entregue para lidar com o comportamento do meu filho. Ora, sendo o meu filho uma criança ansiosa e com dificuldades em regular as suas emoções, o meu comportamento devia ter sido o oposto ao que tinha sucedido.

Uma mãe calma, dialogante, empática que desse o exemplo ao seu filho de como lidar com os momentos mais desafiantes da vida precisava-se.

Senti-me uma porcaria de mãe (para não dizer pior). A lista de estratégias, essa, lá estava, no frigorífico, a olhar para mim: toda altiva no seu pedestal. Deu-me uma raiva.

Olhei de relance para a dita e li na diagonal:

“Estabeleça regras, mantenha a calma, seja consistente, não recorra ameaças…”

Deu-me uma raiva tão grande da minha impotência para cumprir com a lista que a rasguei aos bocadinhos. Lixo.

“Pois sim. É tão fácil escrever uma lista do que devemos ou não fazer. Esqueceram-se foi de explicar COMO. COMO é que conseguimos fazer isso na prática? “, pensei eu.

“Como não gritar, como não me passar, como não me saltar a tampa. COMO ?”

Juro que tentei ficar impávida e serena. Juro. Mas não consegui. E não era a primeira vez que aquilo acontecia. O meu filho parecia conhecer os meus gatilhos de cor e salteado. E aquela lista era muito limitada – não me ensinava a lidar com as emoções assustadoras que o meu filho me despertava.

É tão fácil dizer o que os pais devem ou não fazer e, às vezes, tão difícil de aplicar não é?

Como evitar que nos salte a tampa perante comportamentos desafiantes?

De repente as emoções tomam conta de nós e pum: parecemos primitivos.

Mais do que uma lista temos de saber COMO podemos não ser arrastados por essas emoções que nos chegam sem aviso. Ter recursos e ferramentas para tal. Como?

Faz-me lembrar uma vez o meu filho que me disse: “Mãe todos me dizem para ficar mais atento mas ninguém me explica COMO fazer isso!”. Eu fiquei a olhar para ele embasbacada sem saber o que dizer, sabia lá eu como é que ele podia estar mais atento, eu só sabia que ele tinha de estar mais atento, ponto final. COMO podia estar mais atento? Neste caso tive de ir à origem do processo: explicar o que é a atenção, como se processa, como funciona, como se realiza na prática. Claro que isto de uma forma apropriada à sua idade.

O mesmo se passa connosco. Se quisermos seguir e cumprir com a lista, antes da lista, temos de ir à origem, que é como quem diz: olhar para nós – ter consciência dos nossos gatilhos, conhecer a nossa história, dar-lhe significado e fazer as pazes com o nosso passado. Não podes calar o grito se não souberes de onde ele vem, entendes?

E assim que rasguei a lista decidi colocar uma folha no frigorífico em substituição com um recado de mim para mim: URGENTE PROCURAR AJUDA – PARA MIM!

Podes ter a melhor lista de estratégias e até podes conseguir cumprir com sucesso alguns dos itens mas há momentos, há momentos, que o teu filho te confronta contigo, com as tuas feridas, vergonhas, fantasmas e, nesse momento, a fera sai e não há nada a fazer: adeus lista.

Ontem o meu filho mais velho fez perguntas e comentários que não gostei. Comentários que revelam características de personalidade que não admiro, que até chego a abominar. No momento consegui não reagir mas fiquei bastante tensa interiormente. “De onde saiu esta atitude do meu filho?”, questionei-me. Observei-me e esperei acalmar-me. Não o julguei, apesar de na minha mente terem surgido uma série de frases malévolas para lhe dizer.  Hoje perguntei-lhe o porquê de tais comentários e ele explicou. Afinal tinham lógica, justificação, razão de ser. Não gostei de os ouvir porque esses comentários mostram partes minhas que não gosto de assumir, que tenho vergonha. Foi duro mas tornou consciente algo que preciso de trabalhar em mim. Há uns anos tinha-me passado por completo. Hoje em dia já consigo seguir a tal lista, a minha lista. Sim, eu criei a minha lista para lidar com os seus comportamentos, uma lista com base nos meus valores. E o meu filho aprendeu a regular as suas emoções.

Descobri mais tarde:

Ele não estava a testar os  meus limites – ele estava a pedir a minha atenção

Ele não estava a faltar-me ao respeito – ele estava a querer ser respeitado

Ele não estava a gozar com a minha cara – ele queria que eu o aceitasse tal como ele era

Esta mudança de paradigma foi essencial.

Sabes às vezes sinto que tudo está ao contrário. Ora reflecte:

Procuramos ajuda para os nossos filhos e esquecemo-nos de ajudar a nós (o pilar principal dos nossos filhos).

Queremos que sejam atentos e calmos e andamos a correr, desatentos ao que se passa no nosso interior e exterior.

Queremos que sejam empáticos, solidários e carinhosos e comunicamos de forma violenta sem olhar nos seus olhos.

“Mãe, é estranho o mundo”, disse o meu filho. O meu Gui é um verdadeiro detective das incongruências que existem no mundo (o que é uma chatice às vezes) e, por isso, estou sempre a tomar consciência das minhas.

Não, não há lista, não há lista, que possamos seguir a preceito se não pararmos e olharmos para nós com olhos de ver.

Antes da lista, antes do teu filho, estás tu. É para ti que tens de olhar em primeiro lugar. Ele é só um reflexo do ambiente ao seu redor.

Lembra-te que é possível viveres em paz com a mãe/pai que és. Mas tens de parar. Parar, estar em silêncio e olhar para ti. É ai, dentro de ti, que as melhores respostas estão. Porque és tu que sabe o que é melhor para o teu filho. Tu podes fazer a tua própria lista.

Acredita: é possível viveres em paz com a mãe/pai que és. Não sempre, porque a vida real não é assim, mas a maior parte do tempo. E claro isso terá repercussões no teu filho. Daquelas boas, positivas, que tu desejas. E neste processo de harmonizares a relação com o teu filho há uma descoberta maravilhosa que fazes: quem és tu.

Por isso, os meus filhos são meus mestres. Os teus também podem ser teus mestres.

Se quiseres a minha ajuda estou aqui: carlapatrocinio33@gmail.com

Um abraço apertado da tua Coach Parental,

Carla Patrocínio

 

 

 

 

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