Socorro, o meu filho é mal educado!

No outro dia ligaram-me irritados porque o meu filho se recusara a fazer uma tarefa.

Senti logo a fera a querer sair dentro de mim (vou crucificá-lo, mas porque é que está ele a ser mal educado?). Acalmei-me, tentei não o julgar (respira Carla, respira…)  e fui dialogar com ele:

– Porque te recusaste?, perguntei.

– Mãe só pedi 2 minutos de pausa, estava muito cansado. Mas depois gritaram comigo de uma maneira tão alta e violenta, até me cuspiram sem querer, que me recusei a fazer. Assim não dá!

Então nesse momento houve um conflito interno. Porque conhecendo-me como me conheço também não gostaria que me falassem assim e também me recusaria. E senti que, no fundo, ele tinha razão. No entanto, o meu EGO não estava gostar nada desta sensação e retorquiu de imediato: “que imagem está o teu filho está a passar? Vão chamá-lo de mal educado. Não deixes, reage, castiga-o. E o que vão pensar de ti, enquanto mãe? que vergonha!”

Tive mesmo que me voltar a ligar ao coração e perguntar: o que faria o Amor neste caso?

E percebi. Pois é. É muito fácil ir com a corrente. Os comentários depreciativos dos outros são deveras incomodativos, principalmente quando tocam no nosso papel de mãe. Se ouves dos outros que o teu filho não devia ser assim, fazer assim, estar assim, tens tendência a corrigir de imediato. O grande medo é que ele seja conotado de mal educado. E isso impacta em ti, no valor que te dás. Então vêm os castigos, repreensões, explosões mas será que a criança deixará de ser “mal educada” dessa forma?

Será que com essas atitudes lhes estás a dar exemplos de boa educação? E afinal: o que é ser bem educado? Ser bem educado é aceitar tudo o que o adulto diz? E se os adultos não estiverem a ser bem educados?

E só porque é criança tem de respeitar incondicionalmente o que o adulto diz?

São só perguntas para reflexão.

Uma vez chamei estúpido a um professor de piano que me humilhou várias vezes à frente da turma. Eu tinha 12 anos. Ele tinha por hábito quando eu não sabia a matéria chamar os meninos mais novos, de 6 anos, para me ensinar o que não sabia. Mas isto era feito com irritação e vexame: “é uma vergonha não saberes isto, vou ali chamar o João que tem apenas 6 anos para te ensinar”. Era muito doloroso. Sentia-me um ser sem valor algum. Sem dúvida não foi a melhor forma de agir da minha parte (existiam outras formas de comunicar os meus limites sem ofender mas eu não sabia) mas quando me lembro desse episódio sinto que foi um momento de afirmação do meu ser. Sim, finalmente disse basta! (Aquilo já passava há algum tempo). Finalmente coloquei o meu limite, finalmente voltei a amar-me. Os meus pais quando souberam do episódio queriam que fosse pedir desculpa. Mas eu só lhes perguntei: querem que eu seja bem educada ou que goste de mim?

E o que é afinal ser mal educado?

Não lhe apeteceu fazer os TCP e recusou-se – é considerado mal educado. Vamos desvendar o que está para além: afinal esteve todo o dia sentado e está farto de trabalhar.

Interferiu com barulhos e ruídos em sala de aula – é considerado mal educado. Vamos desvendar o que está para além: afinal o outro gritou violentamente com ele e humilhou-o em frente à turma.

Deitou-se no chão e não cumprimentou a vizinha – é considerado mal educado. Vamos desvendar o que está para além: afinal teve vergonha e ficou sem coragem de dar os bons dias.

Bateu no amiguinho – é considerado mal educado. Vamos desvendar o que está para além: afinal queria mais atenção e não sabia comunicar a sua necessidade de outra forma.

Afinal o que é ser mal educado? E porque nos sentimos tão ofendidos com má educação? E o que é ser bem educado? E a boa educação deve depender da idade, do género, do sexo, da raça ou deve ser transversal a todas estas variáveis?

Estamos todos tão preocupados em corrigir a boa educação que não conseguimos alcançar o que existe por detrás do que chamamos má educação. E às vezes o que está além é mesmo uma necessidade de maior amor.

P.S – comunicar os nossos limites também são uma forma de dar amor.

Então até que ponto será construtivo ensinar o meu filho a ser bem educado com pessoas que reagem violentamente com ele? E que efeitos terá isso a longo prazo? Aceita que te gritem por boa educação, dizes. E quando for adulto e trabalhar para alguém, será que é bom aceitar que o patrão lhe grite e ele por boa educação fique calado e não comunique os seus limites? Quantas pessoas lidam com estas situações e em vez de viver, sobrevivem. As depressões, os ataques de ansiedade e outras doenças mentais estão ai na ordem do dia a despoletar em cada esquina, porque será?

Às vezes dizem-me que os meus filhos deviam ser assim ou acolá. E fico frustrada, zangada e começo a ouvir a voz do medo: “o teu filho é mal educado, castiga-o!”.

Então hoje criei um lembrete para os momentos que me descentro, que me deixo ir pela corrente.

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[Lembrete para mim e para quem assim sentir ]

É desafiante sair da caixa
Não queres duvidar de ti mas às vezes ficas meia perdida
Precisas de validação e deixas de ouvir o teu coração
Os outros dizem
É porque devia cumprimentar o vizinho
É porque devia estar todo o dia quieto 
É porque devia … 

Olha a má educação! 

Mas tu sentes que não e às vezes querias alguém que te dissesse: “tens razão”

Mas ir contra a maioria é difícil. 

Então eu digo-te: tens razão, ouve o teu coração! 

Pelo teu filho
OUSA
Ousa descondicionar-te
Ousa desconstruir-te
Ousa sair da caixa como se fosses uma adolescente rebelde
Ousa sair da tua zona de conforto e olhar para ti
Ousa encontrar onde o teu filho te foi tocar
Ousa abraçar a tua criança ferida em vez de fingires que ela não está ai
Ousa desapegar-te do teu manual de instruções de “como educar” que te foi imposto sem reflexão
Ousa pensar com o coração, instinto, intuição 
Ousa sair da tua mente que te conta histórias que são mentira e que te colocam numa energia de medo
Ousa acreditar no melhor do teu filho

LIBERTA-TE
Liberta-te do que os outros pensam e do ruído exterior que te bloqueia a mãe sábia que há em ti
Liberta-te das crenças enraizadas, dos paradigmas estabelecidos, que te dizem como deves ser mãe e como deve ser o teu filho
Tu sabes isso melhor que ninguém

SUBSTITUI
Substitui culpa por compaixão. Por ti e pelo teu filho. 
Substitui “o meu filho está a faltar-me ao respeito” por ” o meu filho está a fazer o melhor que pode com os recursos que tem”
Substitui “o meu filho está a testar os meus limites” por “ele tem uma necessidade que não está a conseguir comunicar”

LARGA
Larga as pessoas que te dizem que o teu filho te está a querer manipular, te desrespeitar, te testar ou coisas deste género (no fim, ele está a pedir-te ajuda)
Larga as pessoas que te fazem duvidar da mãe que és
Larga as pessoas que te fazem duvidar da bondade do teu filho
Larga as pessoas que te fazem duvidar do amor que existe no coração de ambos

RECONHECE
Reconhece que estás a fazer o melhor que podes
Reconhece que és a mãe que o teu filho precisa
Reconhece o teu valor que vem de dentro (e que não há nada nem ninguém que te possa tirar)
Reconhece que mereces cuidar de ti e mimar-te todos os dias
Reconhece que o teu filho, independentemente do que faça ou diga, só quer, tal como tu, ser amado e respeitado.

Mas como podes conseguir isto?

Sozinha é difícil, sem dúvida. 
Por isso não tenhas medo: pede ajuda! 
Porque tu mereces.
Porque o teu filho merece.

Não há nenhum assunto mais importante do que tu ou o teu filho, não te iludas. 

E se o meu filho for mesmo mal educado? – perguntas.

Se for, não reajas com medo, raiva, irritação. Reage com amor. Reage tendo sempre em mente a pergunta: pensando a longo prazo qual será a melhor atitude a ter com o meu filho para que ele aprenda a ser um ser humano melhor? 

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E é este o meu lembrete de mim para mim e para quem assim sentir. Lembrar-me sempre de responder à sua raiva, irritação, mal educação com AMORRRRRRRR.  

Se o teu filho não conseguir ser bem educado: ensina-o a ser com educação. Não o deixes sozinho no quarto em castigo. Ele não está a aprender nada. 

Sentes que não consegues?

Realmente sozinha é difícil, sem dúvida. 
Por isso não tenhas medo: pede ajuda! 

E não te iludas, não há nenhum assunto mais importante AGORA a tratar do que tu ou o teu filho. Não encontres desculpas para reencontrares o AMOR que tu e o teu filho são.

Olha para a imagem que está nesta publicação. Esse menino acabou de se deitar no chão da sala e disse que não queria fazer os desenhos. Achas que ele merece ser castigado ou ajudado? 

Sabias que existe uma tribo que quando uma pessoa faz algo de errado a chamam ao centro e todos lhe dizem como tem um bom coração.  É isto: nesses momentos relembra ao teu filho como ele tem um bom coração.

É possível acederes a outros recursos para ajudares o teu filho. Se eu consegui, tu também consegues.

Se sentires que precisas de ajuda envia-me email para: carlapatrocinio33@gmail.com

Um abraço apertado,

Carla Patrocínio

 

 

A lista de estratégias para lidar com o (teu) meu filho desafiante

Nesse preciso momento parecia um animal primitivo. A imagem que me vem à cabeça é um daqueles gorilas com os dentes e garras de fora, com ar assustador e violento. Uma imagem perturbadora. Gritei, menosprezei, comparei. Magoei-o verbalmente o mais que pude. Aquilo que o meu filho tinha feito era inadmissível.

“Ele estava a testar os  meus limites!”

“Ele estava a faltar-me ao respeito”

“Ele estava a gozar com a minha cara”

Claro que a seguir veio o arrependimento. Horrível. Chicoteei-me mentalmente até ficar com marcas. Aquela minha atitude estava completamente em desacordo com o que dizia a lista de estratégias que me tinha sido entregue para lidar com o comportamento do meu filho. Ora, sendo o meu filho uma criança ansiosa e com dificuldades em regular as suas emoções, o meu comportamento devia ter sido o oposto ao que tinha sucedido.

Uma mãe calma, dialogante, empática que desse o exemplo ao seu filho de como lidar com os momentos mais desafiantes da vida precisava-se.

Senti-me uma porcaria de mãe (para não dizer pior). A lista de estratégias, essa, lá estava, no frigorífico, a olhar para mim: toda altiva no seu pedestal. Deu-me uma raiva.

Olhei de relance para a dita e li na diagonal:

“Estabeleça regras, mantenha a calma, seja consistente, não recorra ameaças…”

Deu-me uma raiva tão grande da minha impotência para cumprir com a lista que a rasguei aos bocadinhos. Lixo.

“Pois sim. É tão fácil escrever uma lista do que devemos ou não fazer. Esqueceram-se foi de explicar COMO. COMO é que conseguimos fazer isso na prática? “, pensei eu.

“Como não gritar, como não me passar, como não me saltar a tampa. COMO ?”

Juro que tentei ficar impávida e serena. Juro. Mas não consegui. E não era a primeira vez que aquilo acontecia. O meu filho parecia conhecer os meus gatilhos de cor e salteado. E aquela lista era muito limitada – não me ensinava a lidar com as emoções assustadoras que o meu filho me despertava.

É tão fácil dizer o que os pais devem ou não fazer e, às vezes, tão difícil de aplicar não é?

Como evitar que nos salte a tampa perante comportamentos desafiantes?

De repente as emoções tomam conta de nós e pum: parecemos primitivos.

Mais do que uma lista temos de saber COMO podemos não ser arrastados por essas emoções que nos chegam sem aviso. Ter recursos e ferramentas para tal. Como?

Faz-me lembrar uma vez o meu filho que me disse: “Mãe todos me dizem para ficar mais atento mas ninguém me explica COMO fazer isso!”. Eu fiquei a olhar para ele embasbacada sem saber o que dizer, sabia lá eu como é que ele podia estar mais atento, eu só sabia que ele tinha de estar mais atento, ponto final. COMO podia estar mais atento? Neste caso tive de ir à origem do processo: explicar o que é a atenção, como se processa, como funciona, como se realiza na prática. Claro que isto de uma forma apropriada à sua idade.

O mesmo se passa connosco. Se quisermos seguir e cumprir com a lista, antes da lista, temos de ir à origem, que é como quem diz: olhar para nós – ter consciência dos nossos gatilhos, conhecer a nossa história, dar-lhe significado e fazer as pazes com o nosso passado. Não podes calar o grito se não souberes de onde ele vem, entendes?

E assim que rasguei a lista decidi colocar uma folha no frigorífico em substituição com um recado de mim para mim: URGENTE PROCURAR AJUDA – PARA MIM!

Podes ter a melhor lista de estratégias e até podes conseguir cumprir com sucesso alguns dos itens mas há momentos, há momentos, que o teu filho te confronta contigo, com as tuas feridas, vergonhas, fantasmas e, nesse momento, a fera sai e não há nada a fazer: adeus lista.

Ontem o meu filho mais velho fez perguntas e comentários que não gostei. Comentários que revelam características de personalidade que não admiro, que até chego a abominar. No momento consegui não reagir mas fiquei bastante tensa interiormente. “De onde saiu esta atitude do meu filho?”, questionei-me. Observei-me e esperei acalmar-me. Não o julguei, apesar de na minha mente terem surgido uma série de frases malévolas para lhe dizer.  Hoje perguntei-lhe o porquê de tais comentários e ele explicou. Afinal tinham lógica, justificação, razão de ser. Não gostei de os ouvir porque esses comentários mostram partes minhas que não gosto de assumir, que tenho vergonha. Foi duro mas tornou consciente algo que preciso de trabalhar em mim. Há uns anos tinha-me passado por completo. Hoje em dia já consigo seguir a tal lista, a minha lista. Sim, eu criei a minha lista para lidar com os seus comportamentos, uma lista com base nos meus valores. E o meu filho aprendeu a regular as suas emoções.

Descobri mais tarde:

Ele não estava a testar os  meus limites – ele estava a pedir a minha atenção

Ele não estava a faltar-me ao respeito – ele estava a querer ser respeitado

Ele não estava a gozar com a minha cara – ele queria que eu o aceitasse tal como ele era

Esta mudança de paradigma foi essencial.

Sabes às vezes sinto que tudo está ao contrário. Ora reflecte:

Procuramos ajuda para os nossos filhos e esquecemo-nos de ajudar a nós (o pilar principal dos nossos filhos).

Queremos que sejam atentos e calmos e andamos a correr, desatentos ao que se passa no nosso interior e exterior.

Queremos que sejam empáticos, solidários e carinhosos e comunicamos de forma violenta sem olhar nos seus olhos.

“Mãe, é estranho o mundo”, disse o meu filho. O meu Gui é um verdadeiro detective das incongruências que existem no mundo (o que é uma chatice às vezes) e, por isso, estou sempre a tomar consciência das minhas.

Não, não há lista, não há lista, que possamos seguir a preceito se não pararmos e olharmos para nós com olhos de ver.

Antes da lista, antes do teu filho, estás tu. É para ti que tens de olhar em primeiro lugar. Ele é só um reflexo do ambiente ao seu redor.

Lembra-te que é possível viveres em paz com a mãe/pai que és. Mas tens de parar. Parar, estar em silêncio e olhar para ti. É ai, dentro de ti, que as melhores respostas estão. Porque és tu que sabe o que é melhor para o teu filho. Tu podes fazer a tua própria lista.

Acredita: é possível viveres em paz com a mãe/pai que és. Não sempre, porque a vida real não é assim, mas a maior parte do tempo. E claro isso terá repercussões no teu filho. Daquelas boas, positivas, que tu desejas. E neste processo de harmonizares a relação com o teu filho há uma descoberta maravilhosa que fazes: quem és tu.

Por isso, os meus filhos são meus mestres. Os teus também podem ser teus mestres.

Um abraço apertado da tua Coach Parental,

Carla Patrocínio