Mindfulness, a prática que mudou o rumo da minha vida…

Passou-me a receita para a mão. Falou-me de todos procedimentos necessários para a sua compra e dos possíveis efeitos secundários. “Ritalina”, lia-se.

Tremi.

A médica continuou a falar muito calma e segura. Deixei de ouvir qualquer som. Só senti. Senti o meu corpo a contrair e paralisar. Senti algo visceral. Senti um misto de emoções: medo, culpa, vergonha, tristeza. Medo pelo que poderia acontecer ao meu filho, culpa pelo que estava a acontecer (de certeza que eu tinha culpa de alguma coisa), vergonha pela situação (o que iriam dizer os outros?), tristeza. Ainda lhe perguntei, esperançada “mas de certeza, não há outra alternativa?”. Ela respondeu-me “eu já vi muitos casos destes e sei qual a sua evolução. Dê-lhe Ritalina!”.

Cheguei a casa e fui pesquisar à Internet. Queria saber tudo sobre aquela medicação. Já sei, não devia fazer isto. Mas era o meu filho!

A pesquisa feita deixou-me ainda mais apavorada. A medicação era um assunto polémico que dividia médicos, terapeutas, psicólogos, professores e pais. Uns a favor, outros contra. Fiquei na mesma.

Afinal quem tinha razão?

Fui então ler o folheto informativo da embalagem da medicação. Sim, porque esse documento devia ser o mais aproximado do que era na realidade aquela medicação. Não foi nada agradável. Arrependi-me seriamente. Os efeitos secundários eram aterradores. Até de morte súbita, a bula mencionava. Arrepio.

Precisava de outras respostas. Decidi então consultar outros médicos. Fui a 3 médicos diferentes, especialistas na área. Todos me asseguraram que aquela medicação era de confiança, largamente experimentada e cuja segurança era atestada por milhões de crianças a quem tinha sido administrada. Fiquei então mais descansada e pronta para dar aquele passo. Mas ainda assim, ainda assim, havia qualquer coisa que não batia certo e que me inquietava o coração: o tratamento farmacológico era seguro mas e quando não o tomasse, como saberia ele gerir as suas emoções, os seus pensamentos, o seu corpo? E a sua autoestima como ficaria quando se apercebesse que sem a medicação não saberia gerir os seus impulsos? Se calhar era melhor esperar e ver….Mas era difícil, existia o sistema de ensino, existia o meu ego. Ambos tinham dificuldade em achar esta ideia de “esperar” simpática: “Esperar? Impossível!”. A escola dizia: “queremos meninos rápidos na aprendizagem e bem comportados.” O meu ego dizia: “quero um filho que me mostre quão perfeita sou.” Qual esperar, qual quê!?

Mas o dilema instalou-se. E uma questão surgiu: e se houvesse outro tratamento que o ensinasse a lidar com os seus sintomas?

“O tratamento farmacológico é o que tem mais eficácia” foi a resposta.

Fui à procura. Sim, é verdade! É o mais eficaz. A curto prazo. Pelo menos, segundo um dos estudos de referência nesta área, o MTA (Multimodal Treatment Study). Nesse estudo realizado ao longo de várias décadas, e onde participaram aproximadamente seiscentas crianças com PHDA dos 7 aos 9 anos de idade, a maioria beneficiou da medicação no primeiro ano. No entanto, os seus efeitos diminuíram até ao terceiro ano, se não antes. As crianças que foram seguidas até aos seus 15/ 16 anos de idade e que tinham tomado medicação não registaram diferenças em relação às que tinham feito outro tipo de tratamento no que diz respeito à avaliação escolar, detenções policiais e hospitalizações psiquiátricas. Os pesquisadores deste estudo concluíram que não havia a longo prazo benefícios em tomar medicação para PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção) e sublinharam a necessidade em desenvolver tratamentos que sejam eficazes, acessíveis e suscetíveis de funcionamento na idade adulta.

Impõe-se agora fazer uma ressalva de extrema importância: este artigo não tem como intenção julgar, condenar, demover todos aqueles que acreditam na medicação. Independentemente dos estudos, na Internet, não faltam testemunhos de pais e portadores desta perturbação a relatar experiências de sucesso com a mesma. Em muitos casos, face à forma como a sociedade está organizada, acredito que os fármacos possam ser úteis. E também não julgo que a intenção dos pais que dão essa medicação seja, como muitos dizem, “porque não têm paciência para os seus filhos”. Aliás, tenho acompanhado pais que tomaram essa opção (uma decisão sempre muito pensada) e são pessoas maravilhosas, com um coração enorme, que amam muito os seus filhos. E sinceramente, também não posso dizer que desta água não beberei.

A única reticência que tenho em relação à medicação, e é este um dos motivos pelos quais conto a minha história, é que esta, com a promessa de resultados visíveis imediatos, nos afasta de olhar para nós, enquanto sociedade e enquanto indivíduos. Por isso, na minha opinião, antes de qualquer tratamento farmacológico é urgente olharmo-nos e questionarmo-nos: “que exemplo, estamos/estou a passar?.

Porque, olhando agora para trás, se naquele momento não me tivesse colocado em causa, se não tivesse procurado por outras respostas, se não tivesse questionado o sistema, não teria tido feito descobertas maravilhosas. Não vou mentir o caminho não foi (é) fácil, houve (há) muitas encruzilhadas, curvas apertadas, lombas na estrada, mas sem dúvida foi (é) a viagem mais bela que fiz (faço) na minha vida. Uma viagem ao meu interior que me ensinou (a) a cuidar de mim, a trabalhar a minha ansiedade, impaciência, agitação, instabilidade emocional, …. No final, a amar-me mais e a amar mais o meu filho. Claro que isto teve repercussões muito positivas no meu filho.

Nunca esta frase de S. Tsabary, terapeuta familiar de renome, fez tanto sentido para mim: “uma certa criança entra na nossa vida com os seus problemas, dificuldades, teimosias e desafios temperamentais para nos ajudar a ter noção do quanto nos falta crescer“.

Acredito que a resposta para os desafios que os nossos filhos nos colocam esteja em dentro de nós e não no exterior. Agora a questão que se impõe é: será que somos capazes de Parar para olhar para nós? E este olhar de que falo não pode ser só realizado pelos pais (claro ajuda, mas não basta), tem de feito por todos, por toda a sociedade. Todos temos de Parar. Porque cada vez há mais crianças a serem diagnosticadas com esta perturbação, com ataques de ansiedade, pânico, …

“Mas isso não é possível”, dizem. “Não temos tempo”. Isto é o argumento que oiço normalmente. Não há tempo. Será? Será que não há tempo? Ou será que nós é que fazemos a escolha de não ter tempo? Falo por mim. Muitas vezes digo que não tenho tempo mas isso não é verdade. Eu tenho tempo. Eu não tenho é paciência. Eu não tenho é essa prioridade. Eu não tenho é disciplina. Eu não tenho é coragem. Mas a verdade é que tenho tempo.

Continuei à procura de respostas. Não foi um processo fácil. Sofri. Perguntei muitas vezes: “porquê a mim?”. Mas continuei. Os nossos filhos fazem-nos isto: buscar forças onde não é possível.

Surgiu então uma prática no meu caminho que mudou o rumo da minha vida e do meu filho. Essa prática chama-se Mindfulness, em português, Atenção Plena. Mindfulness, resumidamente, significa prestar atenção ao momento presente sem julgamentos. Com o Mindfulness descobri que não faz mal Parar. Parar não é perder tempo, é sim Ganhar tempo. Tempo para desfrutar de forma plena de mim, dos meus filhos, da minha família, dos meus amigos, do ambiente que me rodeia, … Com o Mindfulness descobri. Novas sensações. Novas emoções. Novos sabores. Novos cheiros. Novas texturas. Novas paisagens. Novos olhares. Com o Mindfulness descobri. A textura da gelatina. O cheiro da terra molhada. O abraço do vento no Verão. Com o Mindfulness descobri. O sinal nas costas do meu filho. O macio da barriguinha do meu bebé. A necessidade por detrás da birra. A essência por detrás do rótulo. O potencial por detrás da limitação. Com o Mindfulness descobri. Respostas mais conscientes às birras. Reações mais ponderadas às teimosias. Um espaço entre emoção e reação. Com o Mindfulness descobri. O milagre que me rodeia. O ser que sou. O amor que sou. Com o Mindfulness descobri. Que não sou só isto ou aquilo. Que não sou só divertida, expansiva, rápida, agitada. Sou muito mais. Sou sensível, humana, profunda, calma. Sou um pouco de tudo. Sou como tu. Como o outro. Como o teu filho. Não tenho limites. Sou Imensa. Com o Mindfulness descobri. Que não há culpa mas sim compaixão. Por mim e pelo meu filho. Com o Mindfulness descobri que Agora está tudo bem.

E o meu filho, através do meu exemplo, foi acalmando.

Mas não tenhamos falsas expetativas. Não é um processo rápido no sentido em que os benefícios observados são imediatos. Não! É preciso tempo, treino, disciplina, paciência. É preciso inclusive não pensar nos benefícios. Só desfrutar da prática.

Também não quero levar ninguém ao engano, eu e o meu filho não passámos a ser “Budas”. Não. Continuamos a ser agitados, rápidos, inquietos. É a nossa essência! E estou a falar no plural (eu e o meu filho) porque entretanto percebi que eu (pelas minhas reações, atitudes, energia,…) tinha uma grande quota de responsabilidade no seu diagnóstico. Talvez eu também fosse/seja hiperativa. Não sei, o certo é que eu mudei, ele mudou e a nossa relação transformou-se. Para melhor, claro. Com o Mindfulness.

Agora estamos mais atentos ao que se passa dentro de nós. Agora temos uma âncora (a respiração) que nos podemos agarrar quando sentimos que estamos a entrar numa espiral de reatividade, impulsividade,….

Eu aprendi a prestar atenção aos meus filhos sem julgamentos, aumentei a minha consciência do momento presente, reduzi as minhas reações automáticas negativas e mais importante (pelo menos para mim que era uma pessoa controladora e perfecionista) aprendi a confiar na vida, o que me levou a perder muita da ansiedade que tinha. E o meu filho. Bem, o meu filho seguiu simplesmente o meu exemplo. Educamos pelo exemplo. Esquecemo-nos tão facilmente disto, não é?

O primeiro contato com o Mindfulness não foi muito agradável. Para mim que era uma pessoa muito mental, agitada, ansiosa, parar era muito difícil, tornava-se quase angustiante. Mas segui e continuei. Pelo meu filho. Entretanto apaixonei-me. Apaixonei-me de tal forma por esta prática que tirei vários cursos na área da Educação e de Mindfulness.

Ao escrever este artigo também senti a necessidade de criar uma página dedicada ao estudo deste tema. Se quiseres obter mais informações sobre o mesmo segue o link: https://www.facebook.com/phdaemindfulness/

Os estudos já realizados (estudos que implementaram um programa com duração de 8 semanas a pais e crianças com PHDA) referem que esta prática pode ser uma intervenção útil para os pais destas crianças e para o tratamento dos sintomas desta perturbação. Esses estudos utilizaram um programa com a duração de 8 semanas e tiveram resultados, agora imaginemos que, em vez de 8 semanas, conseguimos integrar esta prática no nosso dia-a-dia e que esta passa a ser um modo de vida.

Lídia Zylowska, uma psiquiatra americana especializada em mindfulness, que liderou o primeiro estudo piloto de treino mindfulness em adolescentes e adultos com PHDA, faz algumas questões no seu livro dedicado ao estudo que gostaria que refletisses, inclusive que podes perguntar ao teu filho hiperativo:

– Se houvesse um treino mental que melhorasse a tua atenção, impulsividade, e qualidade de vida, tentarias?

– Se pudesses mudar velhos padrões e reações e criar uma nova maneira de lidar com o stress, mudando a tua vida, farias isso?

– Se pudesses ter um maior equilíbrio emocional, estarias disposto a fazer mudanças na sua forma de viver?

– Se pudesses estar mais presente para ti e para os que amas, isso inspirar-te-ia a fazer mudanças?

– Se tivesses mais controlo nos sintomas do PHDA, achas que faria diferença?

– Se pudesses ter uma apreciação positiva de quem tu és, ficarias mais feliz?

Se respondeste “sim” a alguma das questões, convido-te a experienciar esta prática.

“Mas como?”, perguntas. A mudança começa devagarinho. Só tens que fazer um bocadinho todos os dias. E na verdade, vou-te contar um segredo, não é preciso assim tanto tempo. Se não tiveres tempo, basta uma respiração consciente.

Queres experimentar?

Lanço-te então um desafio. Uma das 7 atitudes do Mindfulness é o Não-Julgamento. Adoro este princípio e tento exercitá-lo todos os dias. Eu sei que não é fácil mas gostava de te propor a prática desse princípio, AGORA. Vamos a isso?

Recolhe-te e respira. Uma respiração longa e profunda. Como seres pensantes que somos é perfeitamente natural julgarmos o que se passa connosco e à nossa volta. Julgamos o vizinho que não trata do cão, julgamos o nosso chefe porque não nos valoriza, julgamos o nosso filho porque se esqueceu de fazer os TPC´s, julgamo-nos porque gritamos com o nosso filho,… E não nos enganemos, todos julgamos. Eu julgo, tu julgas, ele julga… ponto. Então agora convido-te a dares-te conta desses julgamentos. Por exemplo, qual é o teu julgamento agora em relação a este artigo? Achas que … ou achas que…. Observa de forma curiosa o julgamento que estás a fazer. Em vez de te deixares levar por esse julgamento, experimenta simplesmente observar e reconhecer essa experiência. És simplesmente o observador. Respira.

Esta é a minha história. Existirão outras histórias, outras verdades. Esta é minha verdade, que poderá servir uns e não a outros. E está tudo bem! A minha história mostrou-me que é possível uma abordagem diferente a estas crianças. Não me parece lógico que estas crianças sejam vistas de forma isolada. Pertencem a uma família. Pertencem a uma comunidade. O Olhar tem que abranger todos. Mas como? Praticando Mindfulness. Todos!

Mas é preciso Parar!

“Não sou capaz. Não tenho tempo. Não tenho paciência”, dizes. Devagarinho. Estou aqui. Vamos juntos?

Um abraço,

Carla

NOTA: Artigo publicado na Academia de Parentalidade Consciente

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Um novo olhar…

Depois de várias consultas, especialistas, despistes surge o diagnóstico: o seu filho sofre de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção.

Seguiram-se então prescrições médicas e opiniões de amigos e família… Ritalina! Castigos! Prémios!…mas não sei… depois de tantos anos a ouvir uma panóplia de informações, já nada me fazia sentido. Na verdade, a voz da minha mente começava a enfraquecer e o que restava… o meu coração… não as entendia… Sentia-me cansada, perdida, esgotada e o que ia observando é que todos estavam demasiado focados no seu problema, no seu comportamento, nas suas limitações, nas suas falhas. De forma geral, o que fui reparando é que a maioria partia da uma crença que era a seguinte: esta criança tem um problema que precisa de ser tratado.

A partir desta minha observação e sentir, muitos “e ses” foram surgindo que me fizeram refletir: e se mudarmos o nosso foco de atenção?, e se invés de condenarmos a sua diferença, a aceitarmos a partir do amor que somos?, e se invés de procurarmos um rótulo, descobrirmos o seu potencial?, e se invés de as bloquearmos e julgarmos, criarmos rapport?, e se invés de corrigir os seus comportamentos, desvendarmos as suas necessidades?, e se invés de nos focarmos nelas individualmente, analisarmos de forma compassiva e humilde o sistema familiar que as rodeia?, e se invés de nos colocarmos no lugar do Mestre, nos posicionarmos no lugar de Aprendiz?

E se mudarmos o nosso foco de atenção, o que acontece?

Depois de vários cursos e de um longo trabalho de autoconhecimento este foi o meu desabafo em forma de conclusão:

“Quando deixei de olhar para as suas supostas falhas e olhei atentamente para o meu filho, eu vi um ser maravilhoso: bondoso, sensível, protetor… quando me libertei das minhas expectativas, eu vi o que ele precisava: Conexão! Os seus olhos diziam: Mãe abranda! Mãe olha-me nos olhos! Mãe abranda! Mãe escuta-me, abraça-me e fica comigo, só comigo… Do que precisas filho? De ti, mãe, preciso de ti só para mim. Aqui e Agora. Presente.”

O que percebi mais tarde é que ele afinal ele não tinha um problema que precisava de ser tratado, tinha sim uma necessidade que não estava a ser atendida. Eu tinha estado demasiado obcecada na minha carreira e, apesar de aparentemente ele ter tudo, não tinha o mais importante: a minha presença! A minha Presença Consciente! E o seu comportamento estava simplesmente a espelhar a minha agitação, desatenção, inquietação…

A partir daqui um novo rumo de vida começou a desenhar-se. Queria ajudar outros pais. Queria que o mundo começasse a olhar para a diferença com outros olhos. Mas como podia passar esta mensagem? Como podia mudar o seu foco de atenção?

Surgiu então a Parentalidade Consciente. Esta abordagem sistematizou e estruturou todos meus conhecimentos e, após ter acompanhado algumas famílias com crianças hiperativas, observo que possibilita de forma rápida e eficaz uma mudança no seu foco de atenção, criando uma maior paz e harmonia familiar.

Recordo um caso que me ficou no coração:

O Ruben tem 10 anos, é o mais novo de 4 irmãos e desde os 6 anos que foi diagnosticado com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção. A sua mãe, Filipa, quer ter acesso a uma abordagem diferente para lidar com o Ruben, já que está muito cansada de repetir constantemente o mesmo discurso para mudar o seu comportamento.

O principal problema prende-se essencialmente com o comportamento do Ruben, já que este tem bom desempenho escolar. Segundo a sua mãe, ele é resistente às regras, perde a paciência, zanga-se facilmente, não consegue estar sossegado, interrompe as conversas e não aceita os erros do seu comportamento.

No contexto escolar é onde surgem os maiores problemas. Na sala de aula, não consegue estar quieto e perturba constantemente com ruídos e movimentos. Socialmente não consegue fazer amigos, sendo muitas vezes agressivo. Em casa, o comportamento é mais calmo mas requer atenção quase exclusiva.

No email inicial da mãe duas informações me chamaram atenção: uma prendia-se o facto do comportamento do Ruben ser positivo em algumas disciplinas, o que se concluía que o seu comportamento não era sempre desviante. Impôs-se a questão: o que será que acontecia nas outras disciplinas que o fazia ter um comportamento diferente?

Após este meu questionamento, percebeu-se que nessas disciplinas ele era reconhecido e respeitado. Aqui houve um despertar imediato sobre a importância de satisfazer as suas necessidades e como isso pode influenciar o seu comportamento.

A outra informação que me chamou atenção foi quando a mãe disse: “ O Ruben tenta não me dececionar e é emocionante ver o esforço que faz para corresponder às minhas expectativas.” Perguntei que expectativas eram essas e, apesar de não me responder de imediato, ao longo do acompanhamento centrei-me em trabalhar este ponto. A determinada altura a mãe reportou que era uma pessoa muito racional, analítica e exigente por deformação profissional. Alcançou a custo um cargo de direção numa multinacional e, como não tinha formação académica como os seus colegas, tornou-se muito exigente e perfeccionista. Através de uma prática de mindfulness, tomou consciência que essa exigência se tinha transferido para a educação do seu filho. Percebeu que o julgava constantemente e, aos poucos, foi tomando consciência da pressão que exercia sobre este e de que forma o poderia estar a limitar. Esta tomada de consciência foi alterando o seu foco de atenção para si: que necessidades tinha?, quais as suas intenções enquanto mãe do R.?

Observava-se mais serena… mas a uma determinada altura do processo voltou a sentir-se muito frustrada pois teve uma queixa da diretora de turma em relação ao seu comportamento agressivo. Nesse momento, sentiu-se muito desapontada principalmente porque o R. lhe tinha escondido o que se tinha passado na escola. Questionei-lhe sobre a razão do R. não lhe ter contado esta situação e através da sua resposta, “ele não me conta porque o coloco de castigo no quarto e não o deixo jogar”, tomou automaticamente consciência que este método de educação estava a criar desconexão com o seu filho.

O que observei é que a mãe tinha uma necessidade muito grande de controlo e o filho uma grande necessidade de ser visto e ouvido (conexão).

No final do acompanhamento, depois de termos trabalhado no sentido de mudar o seu foco de atenção e de encontrarmos estratégias para satisfazer as necessidades de ambos, a mãe mostrou-se mais calma e atenta às necessidades do seu filho. Foi por si reportado que parte do problema do R. começava nela e nas suas expectativas que eram demasiado altas. Também mencionou que a mudança estava a ter reflexos positivos no seu filho. As suas intenções enquanto mãe do R. também mudaram ao longo do acompanhamento: de mãe controladora e perfeccionista passou a querer ser uma mãe mais compreensiva e atenta. Observou que a sua forma de abordar os comportamentos desafiantes do seu filho não estavam de acordo com as suas intenções e alterou-os: os gritos e castigos deram lugar a uma comunicação mais consciente e uma maior preocupação em estabelecer uma relação de maior respeito e conexão com o seu filho.

Este despertar e mudança no seu foco de atenção trouxeram uma maior paz familiar. Foi tão bonito de observar.

Na realidade, eu não fiz nada. Guiei simplesmente através de perguntas, sem julgamentos e com muita compaixão. Na verdade todos nós, pais, temos este conhecimento dentro de nós. O conhecimento que parte do Amor. Só precisamos de parar, respirar e confiar. Mas foi muito bonito de observar de como uma mudança de foco de atenção pode transformar uma relação.

Basta mudar o foco de atenção e o que surge é maravilhoso. E a Parentalidade Consciente permite isso. Sonho um dia que este foco se altere não só nos pais mas na sociedade em geral. O que poderíamos aprender com estas crianças?

Hoje chamo o meu filho de “Mestre”. O meu filho despertou-me para a minha agitação, para o meu controlo, para a minha necessidade de perfeição, para a minha insegurança, para a minha desatenção… Ele mostrou-me onde precisava de crescer.

Hoje em dia, quando me deparo com um comportamento mais desafiante do meu filho, respiro fundo e há 3 questões que faço:

– Que parte de mim me está a querer mostrar?

– Que necessidade sua pode estar em falta?

-O que preciso de trabalhar em mim para ter uma relação mais harmoniosa com o meu filho?

Resta referir que existem momentos que ainda me irrito, que ainda falo alto, que ainda fico sem paciência… E sabem o que faço? Respiro. Não uma respiração feita em piloto automático mas uma respiração consciente. Uma respiração que me faz regressar ao coração e perguntar: esta reação está de acordo com as intenções da mãe que quero ser? E a seguir, se a resposta for negativa, faço uma coisa que aprendi ao longo deste percurso: peço desculpa e tenho muita compaixão. Por mim e por ele. Tanto eu como o meu filho estamos a fazer o melhor que podemos com os recursos e consciência que temos.

Tu estás a fazer o melhor que podes. E o teu filho também.

Agora, imagina. Imagina como seria o relacionamento com o teu filho se mudasses o teu foco de atenção? Quem é o teu filho por detrás do rótulo? Quem é esse ser por detrás do comportamento? Do que é que ele realmente precisa? Para, Respira, Confia e Ama. Tu sabes.

Um abraço,

Carla Patrocínio

NOTA: Artigo publicado no blog da Academia da Parentalidade Consciente

A VERDADE dura e crua…

Eu era uma verdadeira guerreira! Sempre a correr de um lado para o outro à procura do melhor médico, terapeuta, especialista para ajudar o meu filho. Eu era uma verdadeira guerreira! Sempre a correr de um lado para o outro à procura da melhor escola, professora, explicadora para ajudar o meu filho. Eu era uma verdadeira guerreira! Geria a casa, a empresa, a família. Eu era uma verdadeira guerreira!

E se por um lado, ser uma verdadeira guerreira é magnífico, por outro, pode ser altamente destruidor. Porque uma verdadeira guerreira não gosta de parar. Não é esse o seu instinto! A guerreira, como o próprio nome indica, está sempre pronta para a guerra. O problema é que, no meio de tanta luta, foco e correria, se esse instinto não for bem gerido, pode acabar por matá-la e fazê-la perder a batalha final… Porque mesmo os guerreiros, antes de ser guerreiros, são pessoas com necessidades. E mesmo os guerreiros precisam de descansar para ganhar fôlego, encontrar novas estratégias, ter uma visão mais abrangente da situação… Mas eu não, não via as coisas dessa forma, se era para ser guerreira, era para ser guerreira! Parar era perder tempo. Parar?! Não fazia parte das minhas opções. E assim esta guerreira esqueceu-se de si. Cuidava de todos e não cuidava de si... E assim esta guerreira esqueceu-se de Olhar para o seu filho. Cuidava dele mas, na verdade, não o conhecia… Vivia simplesmente em piloto automático, preparada para a luta.

Quantas guerreiras existem por ai a viver assim?

Até que chegou o dia. O dia em que ele foi finalmente diagnosticado. E depois de uma série de anos, kms, horas, gastos, consultas e de um esforço quase sobre-humano para que o meu filho fosse da maneira que eu tinha inicialmente planeado, Rendi-me. Não, ele não ia ser nada daquilo que tinha sonhado, ou seja, Perfeito. Fácil, não? Escusava de andar a discutir com ele, de andar à procura de algo milagroso, de controlar, mandar, aconselhar, lutar…

Nesse dia, Rendi-me.

E foi estranho mas, quando a consulta terminou, senti algo inesperado. Uma emoção, por mim, desconhecida até então. Mais tarde, reconheci. Foi PAZ que senti. Sim, Paz. Acho que é esta a sensação que a Aceitação nos traz. PAZ. Eu tinha estado em guerra e não sabia. Uma guerra entre o meu EGO e a sua ESSÊNCIA. E quanto mais eu o pressionava para ser “aquela pessoa”, mais o seu comportamento piorava e mais a nossa relação se deteriorava.

Nesse dia, Desisti. Parei de lutar.

Larguei as armas, despi a armadura, sai do meu pedestal e decidi fazer uma coisa que há muito não fazia e que, com todos esses “procurares fora”, me tinha esquecido:  SENTAR-ME AO SEU LADO, OLHAR-LHE NOS OLHOS, ESTAR EM SILÊNCIO E SIMPLESMENTE OBSERVÁ-LO. Foi como se o tivesse a observá-lo pela primeira vez. Livre das minhas crenças, expetativas, sonhos,… E fui à procura da causa….

Não foi fácil. Não estava habituada a parar, a ouvir, a estar. Só sabia correr, controlar, ordenar, mandar,…

Mas foi finalmente nesse dia que o Aceitei e que me tornei disponível para o Amar sem condições.

A seguir surgiram certas questões que me perturbaram mas que me “obrigaram” a mergulhar dentro de mim: “mas por onde é que raio é que eu tinha andado? porque é que tinha resistido tanto? porque não o aceitara?”

E a resposta surgiu tipo flecha. Rápida, certeira, sem avisos. E doeu. EU NÃO O ACEITAVA PORQUE QUERIA SER ALGUÉM ATRAVÉS DELE. Eu queria que ele fosse aquela pessoa que eu nunca tinha conseguido ser. Eu queria que ele cumprisse os meus sonhos. Eu queria que ele me mostrasse o quão perfeita era.

Doeu. Afinal aquela responsabilidade não era dele, era minha.

E tu, será que aceitas realmente o teu filho ou queres ser alguém através dele? 

Se sentires que te posso ajudar, envia-me um email para carlapatrocinio33@gmail.com.

Um abraço apertado,

Carla Patrocínio